Meninas no esporte, uma relação que exige lugar de fala, espaço de escuta e oportunidades

Você provavelmente já ouviu dizer que “lugar de mulher é onde ela quiser”, certo? Mas, para querer, elas precisam que esse direito seja garantido na prática, em espaços seguros de respeito e acolhimento, nos quais as oportunidades existam de verdade. Afinal, mulheres enfrentam barreiras por serem o que são: mulheres. No cenário do esporte, os contratempos hoje seguem acentuados, seja pelo preconceito, insegurança, estrutura familiar ou simplesmente pela falta de incentivo. No passado, foi a própria lei.

Na ditadura militar, as mulheres estavam proibidas de praticar artes marciais. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos deliberou que não era permitida a prática de “futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo-aquático, pólo, rugby, halterofilismo e beisebol”. Pesquisas realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) também apontam que a diferença de participação esportiva por gênero é maior onde os recursos financeiros são menores, ou seja, quanto mais pobreza, menos possibilidades.

O Instituto Família Barrichello luta para transformar a realidade. A estratégia tem origem já no processo de formação dos educadores. “Criamos espaços de escuta, orientando e trazendo as famílias para perto de nós, mostrando o quanto a prática esportiva pode contribuir para o desenvolvimento físico e cognitivo, e como isso pode acarretar em boas consequências no futuro. Existem questões específicas de cada gênero e, no caso das meninas, elas precisam estar à vontade, ver mulheres como espelho ou referência para elas. Isso traz segurança”, disse Amanda Busch, coordenadora de projetos do IFB.

Assim como inúmeras crianças, Amanda teve o primeiro contato com o esporte na rua. Era uma das muitas meninas que jogavam bola entre os meninos – e sofria discriminação, embora não compreendesse isso na época. “Minha iniciação no esporte foi brincando na rua. Quando completei 10 anos, mudei de escola e fui fazer basquete, futebol, handebol, natação e judô. Ganhei espaço, pois existiam as categorias femininas, só não havia muitas meninas praticando. Então, juntavam as categorias. Na faculdade, eram mulheres de três cursos da mesma universidade para formar uma equipe. Essa sempre foi uma dificuldade”, contou.

A coordenadora avalia que o número reduzido de meninas que praticam o esporte se deve também à falta de estrutura familiar, algo comprovado através de ações já realizadas pelo Instituto Família Barrichello. “Do ponto de vista institucional, sempre criamos as oportunidades para que as meninas viessem, mas notamos que a partir dos 12 anos de idade, elas começavam a se afastar do esporte. Na periferia, regiões de maior vulnerabilidade, as famílias trabalham e normalmente é a menina que cuida de casa, de uma criança pequena, por exemplo. São questões que precisamos saber interpretar”, afirmou.

Se a adesão das mulheres ao esporte não é tarefa fácil, a permanência nele é ainda mais difícil. Nesse caso, a falta de estrutura financeira ou de um simples estímulo familiar pode fazer a diferença. “A família é um fator determinante para que as jovens se mantenham no esporte. O espaço vem melhorando, mas está longe de ser o ideal. Nosso trabalho é ensinar a gostar do esporte, com a ludicidade em primeiro lugar. Assim, as meninas passam a gostar, mas falta abertura, ou um local seguro para a prática. Há muito o que se fazer para que as garotas possam amar o esporte em suas inúmeras modalidades. Nesse sentido, os educadores precisam ter sensibilidade de lidar com elas”, ponderou Regina Helena, supervisora técnica no projeto ECA (Esporte e Cidadania em Ação).

Atenção: Foto registrada antes da pandemia do coronavírus.

Educadora do Instituto Família Barrichello, Regina trilhou um árduo caminho no futebol. Antes, aos 13 anos, ela conheceu o atletismo e correu pela escola em que estudava no interior da Bahia. “Eram poucas mulheres”, relembrou. Depois, tomou gosto pelo futebol, já em São Paulo. “Eu tinha 14 anos e nove meses quando comecei a jogar nos times. Na região de Interlagos, as meninas se juntavam para jogar de sábado e domingo”, disse Regina, que já passou por boicote em testes antes de atuar profissionalmente por quase dez anos, entre 1998 e 2008. A educadora, que jogou o Paulista por Nacional e Suzano, conviveu com estruturas precárias e teve como maior renda R$ 900.

“Foi o máximo de dinheiro que tirei, R$ 900. Para ser atleta no Brasil é muito difícil, porque as barreiras são enormes, inclusive na questão de gênero”, falou. A experiência que ela teve no futebol, entretanto, tem valor importante para exercer o papel de educadora, sobretudo no que diz respeito aos espaços de escuta. “Eu nunca tive uma técnica mulher, por exemplo. Os técnicos nos tratavam igual aos meninos, na forma de se retratar, com agressividade, sem a paciência que a mulher exige. Não que os meninos não necessitem, não queremos exclusividade, mas é ter a sensibilidade de olhar para uma menina de forma mais carinhosa. Aquilo me desmotivou, saía de campo chateada com a sensação de não ter feito o melhor ao ver o treinador esbravejando e gritando”, explicou.

Regina, porém, persistiu. E, assim como ela atua com as meninas que frequentam os projetos do Instituto Família Barrichello, foi ouvida e incentivada. “Quando comecei a me sentir atleta, a fazer por amor, passei a bater de frente com os técnicos e isso me gerou poucas oportunidades. No Brasil, o futebol feminino não era profissional e os clubes montavam os times de última hora para participar do Paulista. Era um catado. Uma vez, depois de um jogo, o meu técnico me criticou muito. Estava muito triste. Então, saí do campo e sentei ao lado de um jogador de futebol. Ele viu o meu jogo e começou a me elogiar, disse que eu fazia bem a função de volante, jogando com a camisa 5. Ele observou o que eu tinha de positivo e segui em frente”, afirmou. Os elogios que Regina recebeu vieram de um tal Biro-Biro, especialista da função e um dos maiores ídolos da torcida do Corinthians. “Uma palavra pode significar uma oportunidade na vida de uma menina”, finalizou a educadora.

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